Concurso Público Nacional de Projetos de Arquitetura e Complementares para a Sede IAB/DF + CAU/BR


Inscrição Nº 60


Observando o resultado dos concursos de projetos em todo o país e as publicações especializadas, se percebe em sua maioria, a nítida preferencia por formas geométricas simples e ortogonais. Será dentro desses limites que as funções deverão ser resolvidas, e as pessoas inseridas a qualquer preço, como no Racionalismo do início do século XX em sua expressão mais simplificadora. Vários modernistas não ficaram aprisionados nessas formas geométricas, como Alvar AAlto, Frank Lloyd Wright, Kenzo Tange, e mesmo Le Corbusier em vários de seus melhores projetos, entre tantos outros. O resultado do recente concurso do IABDF/CAUBR não foi diferente, apesar de contar em seu júri com um consagrado arquiteto de São Paulo, um jovem arquiteto de Minas Gerais que já demonstrou sua qualidade em mais de um projeto e dois professores urbanistas – dos sete projetos selecionados, só um não está contido em uma forma geométrica simples. O que mais surpreende é que dentre os sete, o escolhido foi exatamente o que apresenta mais problemas com relação ao Edital, ao Código de Obras, à paisagem urbana, à questão energética e ao atendimento ao programa e ao conforto dos usuários. Além disso, dentre os seis que optaram por dois subsolos, foi o único em que o primeiro subsolo é completamente enterrado, sem qualquer ventilação ou iluminação natural, apesar do declive do terreno proporcionar essa possibilidade. O que levou a Comissão Julgadora a esse veredito? A formatação exigida no Edital? Os meios para a análise dos projetos? A exiguidade do tempo para essa análise, porque, como já observou o arquiteto Mário Biselli, "concurso de projetos de arquitetura não é concurso de beleza”. Tampouco de arte gráfica. O projeto escolhido “contorna” o limite de altura da fachada, fixada em 9,50m ao “considerar” o nível de soleira 1,20m abaixo do indicado pelo Edital, alcançando 10,80m nas fachadas SE, NE e NO. A fachada SO tem 13,80m de altura e consiste numa muralha praticamente cega com 75m de extensão, onde além das circulações verticais e alguns espaços técnicos, se encontram todos os sanitários. Uma muralha de 13,80m x 75,00m na divisa com um vizinho não lhe deve ser de muito agrado, tornando-se um acumulador e irradiador de calor em sua divisa lateral. Será que essa muralha, que supera em altura e escala todas as edificações da região, é o marco na paisagem, desejado pelos arquitetos brasileiros para sua entidade oficial? Talvez um convite à expressão artística do Grafite de Brasília? O projeto não explicita qual a intensão na criação dessa muralha além de solução funcional. Ainda com relação ao Edital e Código de Obras, vale observar que, se foi permitido o uso dos afastamentos laterais para rampas de acesso a subsolo, não é permitida edificação nesses afastamentos, como no caso do projeto escolhido, que cobre a entrada da garagem, onde o muro de arrimo alcança 8,75m de profundidade, construindo um túnel com 30,00m de comprimento no afastamento lateral. Quanto à questão energética, é ocioso mencionar custos e sistemas alternativos de geração de energia quando todo um pavimento necessita ventilação e exaustão mecânica, refrigeração e iluminação artificiais devido a estar enterrado. Note-se que aí estão, além das atividades que demandam maior número de pessoas num mesmo momento, os Serviços Gerais do CAUBR, onde trabalham os funcionários menos favorecidos. Nos 3 pavimentos acima do solo, a adoção de um fachada cega exige maior comprometimento com relação à iluminação, e tampouco considera vistas na amplidão do Planalto, notadamente para o Centro de Documentação do CAUBR, cuja vocação o aproximaria da área Cultural do IAB e da fruição da paisagem, uma vez que o terreno não está confinado em área urbana congestionada e sem perspectivas ou horizontes. O IABDF deveria ter integridade espacial, como é o caso do CAUBR, e não, estar fragmentado, com Sede Administrativa no último pavimento e Salão Multiuso, Restaurante e Loja no térreo, dois pavimentos abaixo, sem conexão direta. O Restaurante e a Loja do IABDF só tem acesso pela parte externa, renunciando à sinergia com o fluxo do edifício e ao convite ao convívio, reduzidos a unidades meramente comerciais. O Edital remarca literalmente que a “escala bucólica” resultante das áreas verdes “são fundamentais para a identidade e a estruturação da cidade”. A Praça proposta é mais próxima de uma esplanada, acesso estéril e sem atrativos para o encontro e permanência. A arborização, como descrita pelos autores, exerce relação platônica com os usuários do edifício. Enfim, a impugnação do resultado pelas poucas, porém suficientemente graves, transgressões ao Edital aqui apontadas, e melhor detalhadas no recurso do colega José Lúcio de Assis Ferreira, certamente não privará o IABDF e o CAUBR de terem uma sede que bem represente os arquitetos, devido a vários projetos em condições de substituí-lo. Cabe ressaltar que os autores merecem toda nossa consideração como profissionais e que essas observações se referem apenas a esse projeto específico. Não existe projeto, por melhor que seja, que não esteja sujeito a um certo grau de deficiências. Aos arquitetos coube fazerem sua proposta, mas foi à Comissão Julgadora é que coube premiá-los. Aqui caberá uma reflexão sobre a possibilidade de julgamento de tal número de projetos em prazo tão curto e com os meios e a formatação que lhes foram oferecidos. Afinal, tão importante quanto o edifício “dos arquitetos” é verificarmos se esse concurso assim organizado, pode servir de referencia para à contratação de obras públicas no Brasil, o que só será possível se for capaz de inspirar confiança em seus promotores, públicos e, por que não, também os privados.